Quais as características do autismo? Espectro engloba diferentes aspectos e níveis de severidade

Sam Gardner (Keir Gilchrist) é o personagem principal da série Atípico (foto), da Netflix, que traz como tema central o Transtorno do Espectro Autista (TEA) – mais conhecido como autismo. Mas essa pequena descrição já evidencia duas situações sobre a condição: a primeira delas é que é muito pouco conhecida. Por isso em 2 de abril se comemora o Dia Nacional e Internacional da Conscientização sobre o Autismo.

Além de as pessoas conhecerem pouco sobre o autismo, há uma outra questão: o termo não encaixa em uma descrição única. O TEA não é uma doença, e sim uma condição. O espectro é caracterizado por um conjunto de manifestações, que ocorrem em diferentes graus de severidade – levando a identificações como “autismo leve” e “autismo severo”.

Desde 2013, o TEA agrupa cinco condições antes entendidas de maneira separada: autismo, autismo atípico, síndrome de Asperger, transtorno do espectro autista e transtorno pervasivo de desenvolvimento. A mudança de entendimento veio com a publicação do chamado DSM V pela Associação Psiquiátrica Americana (APA).

O que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Problemas na comunicação verbal e não-verbal, que desembocam em dificuldade de socialização, bem como comportamentos ou interesses repetitivos das crianças são as características principais do Transtorno do Espectro Autista. Os primeiros sinais aparecem normalmente entre o primeiro e o terceiro ano de vida.

A criança autista prefere ficar sozinha e não forma relações muito íntimas com outras pessoas – não gosta de abraço e evita contato visual. Além disso, resiste a mudanças e repete continuamente atos e rituais.

O pequeno e a pequena que possuem a síndrome podem ainda começar a falar depois de outras pessoas da mesma idade e, em alguns casos, usar o idioma de forma diferente. Podem também repetir palavras que são ditas a ela. Além disso, têm dificuldade de entender aquilo que os outros falam.

Especialistas ainda destacam que os sinais que aparecem na infância não necessariamente se mantêm estáveis ao longo da vida. Às vezes, por exemplo, o autismo não é percebido na criança, mas psiquiatras conseguem identificá-lo a partir do histórico de comportamento.

Características do autismo

Profissionais identificam o autismo a partir de dois grupos de critérios. Além da dificuldade de socialização e comunicação interativa, em um grupo, pessoas no espectro apresentam padrões repetitivos.

Das características do TEA, a repetição de padrões – especialmente de movimentos motores – talvez seja a mais conhecida. Mas não é só mover o corpo que entra na classificação: comportamento e interesses também podem demonstrar recorrência.

Para o diagnóstico do espectro, a APA indica ao menos 50% das características relacionadas a seguir sobre as repetições. A severidade, no entanto, pode variar de intensidade ou com a idade.

  • Repetição ou estereotipamento de movimentos, uso de objetos ou fala (alinhar ou girar objetos, repetição de palavras ou frases – ecolalia –, uso de frases que só fazem sentido para si mesmo(a) são exemplos);
  • Insistência em mesmice, inflexibilidade em adotar rotinas, ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não-verbal (por exemplo, estresse extremo face a mudanças, dificuldade com transições, padrões de pensamento rígidos, convenções de cumprimentos, necessidade de realizar sempre o mesmo trajeto, comer a mesma comida todos os dias);
  • Interesses altamente restritos e obstinados que são anormais em intensidade ou foco (como excesso de apego ou preocupação com objetos estranhos);
  • Hiper ou hipoatividade com toques ou interesse fora comum com aspectos sensoriais do entorno (exemplos são aparente indiferença à dor ou à temperatura, respostas adversas a sons ou texturas específicas, excesso de toques ou de cheiros de objetos, e fascinação visual com luzes em movimento)

Causas

As causas do autismo ainda são majoritariamente desconhecidas. Segundo a APA, em 15% dos diagnósticos a causa é genética, em função de uma mutação do tipo “de novo”, ou seja, que apareceram pela primeira vez naquela pessoa, em vez de ter sido herdada de um progenitor.

A hereditariedade também é uma causa identificada por pesquisas com gêmeos. Resultados indicam entre 37% e 90% de que ambos tenham a condição.

Alguns fatores de risco também são conhecidos. Idade avançada dos pais e pouco peso nascimento são alguns desses fatores.

Pesquisas indicam, ainda, que o autismo seja quatro vezes mais comum em homens do que em mulheres. Os dados são ressalvados, segundo a APA, pelo fato que a maioria dos casos registrados de mulheres são acompanhados de problemas cognitivos, o que pode indicar que há mais mulheres autistas, porém não diagnosticadas.

Mitos e preconceitos

A falta de conhecimento sobre o espectro acaba levando muitas pessoas a não entenderem a condição e a acreditarem em mitos e ideias preconcebidas. Talvez uma das mais difundidas é a de que autistas em algum déficit cognitivo, o que não é o caso de todas as pessoas no espectro.

A origem dessa ideia talvez venha do fato de que algumas crianças apresentam um desenvolvimento de linguagem diferente do das crianças neurotípicas – como são chamadas as pessoas que não são autistas. Como o espectro engloba diferentes níveis de severidade, a dificuldade de fala pode perdurar, e há também casos de pessoas autistas que não falam – autistas não-verbais.

Achar que crianças e adultos autistas não conseguem aprender é outra ideia falaciosa. Como o desenvolvimento da linguagem, o desenvolvimento intelectual das crianças no espectro também segue uma trajetória própria, entendida como dificuldade na comparação com neurotípicos.

Mas mesmo que o caminho seja diferente da maioria, autistas são, sim, capazes de aprender e desempenhar tarefas e profissões, assim como neurotípicos. Mais uma vez, é a severidade da condição que vai determinar alguma restrição no desenvolvimento. Como ocorre com outras condições, o autismo pode também vir acompanhado de questões neurológicas adicionais – que poderiam impedir o desenvolvimento de algumas funções cognitivas.

A APA descreve, no DSM V, que identificar alguma dificuldade cognitiva “pode ser complicado pela dificuldade de comunicação social e comportamento deficitários inerentes ao TEA, que podem interferir no entendimento e na execução dos procedimentos dos testes”. Ou seja, uma pessoa do espectro pode ser capaz de realizar certas tarefas, porém não conseguir entender que deve realizá-las – seja durante um teste, seja em outros contextos socio-cognitivos.

Além desses fatores, é importante ressaltar que as dificuldades de interação social podem ser identificadas apenas mais tarde no desenvolvimento da criança. À medida que a pessoa cresce e vai se envolvendo em outras situações de convívio social é que algumas características passam a ser percebidas.

Autismo não é doença

Por não ser uma doença, e sim uma condição, o autismo não tem cura. Mães, pais e tutores podem auxiliar a criança a lidar com as disparidades de comportamento em relação ao socialmente aceito em cada cultura oferecendo apoio emocional e profissional.

Para dificuldades com a linguagem, fonoaudiologia é uma das opções disponíveis. Especialistas podem indicar outros tipos de atividades para cada caso no espectro, dependendo da severidade e da idade em que as características se manifestam.

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